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Artigo escrito por: José Matos
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Com o fim da
Guerra em África, tornou-se evidente que a FAP não tinha um caça
moderno capaz de garantir as necessidades de defesa aérea do país e
de satisfazer os nossos compromissos internacionais junto da NATO. O
North American F-86F Sabre que equipava a Esquadra 201 dos Falcões
em Monte Real estava ultrapassado e necessitava de ser substituído
rapidamente. Como membro da NATO e aliado dos EUA, Portugal contava
mais uma vez com a ajuda militar norte-americana para modernizar a
sua força aérea. Dentro do leque de opções disponíveis, a opção mais
desejada e assumida parecia ser um pequeno caça supersónico da
Northrop que podia ser fornecido pelo Departamento de Defesa
norte-americano ao abrigo do Military Assistance Program (MAP). O
F-5E Tiger II era um caça leve e de baixo custo, de fácil manutenção
e operação e capaz de levar uma gama interessante de armamento.
Estava em produção na Northrop e a ser fornecido a vários países
tendo a sua produção final atingido os 1.482 exemplares. O caça da
Northrop era um aparelho vocacionado para operações ar-ar e na sua
versão mais antiga (o F-5A) tinha dado mostras de ser uma boa
máquina de combate na operação “Skoshi Tiger” durante a guerra do
Vietname, onde somou 4.000 horas em missões de apoio táctico,
reconhecimento e intercepção. O F-5E era a segunda geração deste de
caça mantendo a economia e a simplicidade do seu antecessor, mas com
mais capacidades em termos de desempenho.

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A-7P da força aérea portuguesa
Foto: Amável Vicente (
TBIRD33 )
O interesse da FAP
pelo avião começou a ganhar forma em 1976 com a chegada de 6
supersónicos de treinamento Northrop T-38A Talon emprestados pela
USAF para treinamento dos pilotos portugueses. Os aviões foram
integrados na Esquadra 201 em Monte Real, que estaria também
destinada a receber os F-5. Este primeiro lote de aparelhos é
reforçado por um segundo lote igual em Janeiro de 1980 destinado à
mesma função. Em Março desse ano, o Diário da República (I Série –
Nº 60 – 12-3-1980) chega mesmo a publicar o esquema de pintura do
F-5 ( ver imagem lateral - agradecimento especial a Carlos
Gomes ), mas já na altura a FAP pensava
numa outra opção bem diferente do pequeno caça da Northrop.
Depois
de novas negociações com o governo americano, a escolha final era o
Vought A-7P Corsair, um avião de ataque ao solo subsónico com uma
excelente folha de serviços e vocacionado para operações aéreas
ofensivas em ambiente terrestre e marítimo. Os aviões não eram
novos, mas células antigas das versões A-7A/B reconvertidas com
novos aviónicos e motores Pratt and Withney TF30-P-408. Os trabalhos
de preparação e montagem do primeiro lote de aparelhos seriam
realizados pela Vought Corporation em Dallas com os aviões a serem
entregues no prazo previsto. Esta mudança repentina de opção terá
espantado muita gente e provocado estranheza na altura, mas vista à
distância foi acertada perante o contexto da época e os nossos
compromissos no âmbito da NATO. Não sabemos de quem terá partido a
iniciativa de adquirir o A-7, ou seja, se foi de Portugal
exclusivamente ou se houve pressão norte-americana nesse sentido.
Mas as palavras do General CEMFA Lemos Ferreira na cerimónia oficial
de recepção dos aviões parecem apontar para uma decisão
essencialmente portuguesa, embora compreendida pelos americanos:
“Na verdade, recuando quase dois anos no tempo por carência de meios
financeiros tomou-se então a decisão, que foi tecnicamente
compreendida pela autoridades americanas, de temporariamente relegar
para uma menor prioridade o reequipamento respeitante ao avião de
combate ar/ar e enveredar pelo programa do A-7P.
(…) Portanto, poder-se-á afirmar que o programa A-7P em curso
exemplifica um vasto e bem demarcado conjunto de acções relevadoras
da determinação política do Governo Português e do Governo Americano
em actuarem em prol duma capacidade defensiva acrescida da Aliança
Atlântica (…).”
Reforçadas na
mesma cerimónia pelo embaixador americano, Richard Bloomfield:
“Mas a escolha
foi de Portugal. No futuro, tal como no passado, faremos todo o
possível para colaborar com o Governo Português na modernização das
suas forças militares, de acordo com as prioridades estabelecidas
por Portugal. A época que enfrentamos é difícil. Nos últimos anos,
todos nós, membros da NATO, aprendemos que as restrições económicas
tornam ainda mais difícil para cada um dos nossos países adquirir
aquilo que necessita para a defesa.”

F-5E do 1º Grupo de Caça da força aérea brasileira ( na
Base Aérea de
Santa Cruz, no Rio de Janeiro)
Foto:
Mário Roberto
Embora possam não dizer tudo sobre o processo de escolha do A-7,
estes discursos fornecem algumas pistas. A primeira é de que
recursos atribuídos para o reequipamento da força aérea eram
escassos e não eram compatíveis com a possibilidade de termos um
avião de ataque ao solo e outro de defesa aérea. Depois a solução
“A-7” enquadrava-se melhor com o tipo de missões que estariam em
jogo em caso de conflito com o Pacto de Varsóvia. Sendo um país de
retaguarda, Portugal teria como principal função em caso de
confronto receber reforços americanos que viriam tanto por ar como
por mar. Nesse papel teria como missão principal garantir abertas as
linhas de suprimentos pelo Atlântico actuando contra navios de
superfície. Desse modo, a cobertura aérea do país e da Península
Ibérica ficariam a cargo da Espanha e dos F-16 da 401ª Ala de Caças
Tácticos sediada em Torrejón de Ardoz, nos arredores de Madrid.
Sendo assim, a escolha pelo A-7 era mais importante do que o F-5.
Uma comparação entre os dois aparelhos mostra isso claramente.
Comparação
|
Características |
A-7P Corsair II
 |
F-5E Tiger II
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|
Comprimentos |
14,06 m |
14,45 m |
|
Envergadura |
7,24 m (asas
dobradas) |
8,15 m |
|
Peso vazio
Máximo Descolagem |
7 337 kg
19 050 k |
4 410 kg
11 215 kg |
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Motor |
Um turbofan
Pratt & Whitney, TF30-P-408 sem pós-combustão |
Dois General
Electric J85-GE-21 com pós-combustão |
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Potência |
6 074 kg sem
pós-combustão |
2 270 kg cada
um com pós-combustão |
|
Vel. Máxima ( nível do
mar ) |
1123 km/h |
1140 km/h |
|
Carga de armamento |
6805 kg
6 estações nas
asas
2 estações na
fuselagem
|
3175 kg
6 estações nas
asas
1 estação na
fuselagem
|
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Armamento Interno |
2 canhões MK
12 de 20 mm |
2 canhões
M39AZ de 20 mm |
|
Tecto de serviço |
12 545 m |
15 790 m |
|
Raio de combate ( c/
carga ) |
1150 km |
220 km |
|
Radar |
AN/APQ-126 da Texas Instruments com vários modos de operação
ar-superfície |
AN/APQ-159 da Emerson Electric optimizado para operações ar-ar |
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Outros equipamentos |
UHF/VHF
IFF
VOR
RWR
TACAN
HUD
Pave Penny
Radar Doppler de navegação
Sistema inercial de navegação
Computador táctico |
UHF/VHF
IFF
VOR/ILS (opcional)
RWR (opcional)
TACAN+ADF
Visor AN/ASG-31
Sistema inercial de navegação (opcional)
|

F-5 da força aérea brasileira ( 1º/14ºGAv - 1º Esquadrão do
14º Grupo de Aviação )
Foto: Mário Roberto
Embora não fosse um aparelho supersónico como o Tiger II, o Corsair
tinha maior alcance e uma maior carga de armas, além de uma aviónica
superior ao caça da Northrop, que lhe permitia desempenhar um maior
número de missões. Embora o Tiger II pudesse desempenhar missões de
interdição e apoio próximo, não tinha de origem qualquer equipamento
de navegação/ataque que lhe permitisse atingir alvos localizados com
grande precisão, ao contrário do Corsair que estava bem equipado
para esse tipo de missões. É certo que alguns Tiger II entregues a
Arábia Saudita receberam como opcional um sistema de navegação por
inércia Litton LN-33,
que permitia usar alguns tipos de armas de precisão,
mas mesmo assim, o Corsair era superior em precisão e carga de
armamento. Além disso, embora com algumas limitações, o A-7 podia
também ser usado em missões de defesa aérea, usando os canhões
internos e mísseis Sidewinder, o que acabou por acontecer ao serviço
dos Falcões da Esquadra 302.
O
Corsair estava assim mais adequado à defesa da nossa posição no
Atlântico do que o Tiger II. Apesar da elevada taxa de acidentes que
teve depois em serviço, as razões para a sua aquisição mostraram-se
acertadas e permitiram com parcos recursos dispor de duas esquadras
dotadas deste aparelho.
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Bibliografia:
Cardoso, Adelino,
Aeronaves Militares Portuguesas no Século XX, Essencial,
Lisboa, 2000.
Colecção Aviões de
Guerra, A-7 Corsair, 3º Volume, Editora Nova Cultural, São
Paulo, 1985.
Colecção Aviões de
Guerra, Northrop F-5, 3º Volume, Editora Nova Cultural, São
Paulo, 1985.
Colecção Aviões de
Guerra, Flanco Sul da OTAN, 4º Volume, Editora Nova Cultural,
São Paulo, 1985
Ferreira, Lemos e
Richard Bloomfield, Cerimónia de recepção dos aviões A-7P,
Revista Mais Alto nº 215 Jan/Fev. 1982
Roque, Virgílio,
A-7 Corsair II, Revista Mais Alto nº 234 Mar/Abril 1985
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